A religião do Baseado.

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Os estudos que visam explicar o fenômeno da dependência de drogas apontam para a correlação entre três elementos: a droga, o indivíduo e o contexto sócio cultural onde se dá o encontro entre o individuo e a droga. Significa que apenas o componente químico da substância utilizada e suas ações farmacológicas no sistema nervoso não são suficientes para justificar o vínculo indivíduo/droga. 
Embora e química seja a principal responsável pelo prazer (ou desprazer) que a droga irá proporcionar, é no sujeito que se encontra o desejo de usá-la, desejo que para alguns vai se tornando obsessão. Quando ocorre essa ligação, diria fetichista, com a droga, temos então um dependente, um ser cindido, um corpo fissurado, que, como diria Auro Danny, “deseja o prazer, mas teme o remorso”. Um ser que agoniza num paraíso artificial. Triste paradoxo!
Por falar em paradoxo há outro maior ainda tecido nessa teia que envolve os aspectos bio-psico-sociais-espirituais, ou seja, do ser na sua mais profunda essência. Trata-se da estreita relação entre o significado e o oculto da dependência e o sentimento religioso. 
Tomamos a palavra religião na sua origem etimológica, onde religare significa, do Latim, “ligar o homem à divindade” e não da religião instituída, seja lá qual for o credo. 
Explicando melhor, diria que muitos daqueles que se lançam nessa busca desesperada através das drogas, desejam intimamente reestabelecer o paraíso destruído no seu mundo interno. Mundo medíocre e insuportável. 
Assim como o crente busca a Deus, o drogadito busca a droga que momentaneamente colore seu imaginário e devolve-lhe a concretude do existir. Infelizmente nesse caso, o prazer é efêmero e o retorno ao vazio é inevitável. Vencer a dependência não é fácil, aliás, diz-se inclusive que ninguém deixa a dependência, mas a substitui por outra num processo cíclico durante a vida. O dependente de drogas de hoje já foi no passado um dependente afetivo, cujas carências e mazelas deixaram lacunas na estruturação da sua personalidade, onde o “baseado” entre como promessa de redenção. 
Um fato concreto é que a maioria absoluta dos dependentes é oriunda de famílias que se desintegraram, e, mais ainda, sofrem profundamente e principalmente pela ausência da figura paterna. Esse fator explica a correlação entre recuperação/conversão, sendo a razão de muitos só abandonarem a droga quando se permitem experimentar a manifestação de Deus, o Pai, em suas vidas. 
Carl Gustav Jung, criador da psicologia analítica, ao encerrar um caso com um de seus pacientes alcoólatras, depois de um ano de atendimento sem sucesso, sugeriu: - Para você só mesmo uma profunda experiência mística. De fato, pouco tempo depois o homem havia deixado o álcool e se tornado um beato religioso.

 

Jair Queiroz – Psicólogo da Divisão de Prevenção e Educação do DENARC/SSP/RO.